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27 de março de 2011

Esta noite, eu me lembrei de você.


Caro, caríssimo.


 

      Tenho a leve impressão de que nós já nos vimos em algum lugar. Num passado não tão distante. Mas sabe como é a vida de uma pessoa que tem Alzheimer. Em um momento, lembramo-nos de tudo o que já passou. Por vezes, memórias das quais nunca mais nos lembraríamos: o primeiro passo, a primeira palavra, o primeiro tombo, o primeiro beijo, a primeira pessoa que foi capaz e lhe deu amor o suficiente para fazer de você seu homem ou sua mulher. Lembranças de um passado que há muito já passou.

      Talvez nem ao menos tenha lhe conhecido de fato. Mas hoje, eu lembrei de você. Recordo-me o quanto eras "rebelde". Tinha os cabelos bagunçados, desajeitados. Por onde passavas as pessoas ao redor te olhavam com ar de desprezo. De certo, você tinha um motivo para isso. Fugere urbem. A sociedade burguesa, capitalista e consumista não lhe atraia como fazia com os outros. Talvez tudo isso tenha ocorrido à algumas décadas atrás desta em que vivemos. Provavelmente lerás esta carta com certo atraso, então configuro aqui a data de 27 de março de 1990. Voltando as lembranças. Você fumava. Pelo menos um maço de cigarros por dia. Não me perguntes como pude ser precisa assim. Já disse. Às vezes, as memórias vêm. Às vezes não.

    Eu também fumava, não é mesmo? As fumaças dançavam pelo ar. Coloridas. Só nós dois víamos assim. E por vezes nos tacharam de loucos, drogados. Não. Nós não éramos isso. Eu me lembraria de algo tão marcante e decisivo de minha vida. Não lembraria? Pois bem. Não estávamos nem aí com o que os outros diziam, disseram ou iriam dizer sobre nós.

    Não até o dia em que, mais que de supetão, fui avisada de que estarias na praia de Copacabana, aos beijos com uma mulher. Ela não era eu. E aquilo tudo não deveria estar acontecendo. Tentaste me explicar o que havia acontecido. Mas nada poderia mudar aquela situação. E assim se passou os segundos, minutos, horas, dias, meses e anos. Neste meio tempo fui diagnosticada com essa maldita – mas boa – doença. Conforme os anos se passavam, algo de minha memória ia embora. Como a água do chuveiro, que ao escorrer por nossos corpos se vai pelo ralo. Era assim que me senti dia após dia. Faltava algo em mim. Começou com pequenas palavras ditas, pequenos gestos. E antes que isso se prolongue - como irá se prolongar - resolvi lhe escrever, enquanto alguma coisa em mim ainda me faz lembrar de você.

    Espero que estejas bem, onde estiver. E se receberes esta carta antes de meu falecimento inevitável, venha me visitar. Poderá ser que tenha lhe esquecido totalmente na mente. Mas algo em meu subconsciente e em meu coração dirá:

    - Nós já nos vimos em algum lugar antes?

    Com afeto, carinho e compaixão.

                                    Lisa Mckgonagal





 

Escrito por:
Pamela Moreno Santiago
Pauta para a 36ª Edição Cartas, cujo tema era: "Lembrei de você". Ficou um terror, mas espero que gostem. Obrigada pelo carinho de todos e pelos selinhos. Os posto em breve. A foto não tem nada a ver com o texto, mas eu amo House *-*

18 de março de 2011

Hoje perco você em mim, mesmo assim vou vivendo

"Até parece que você já tinha
O meu manual de instruções
Porque você decifra os meus sonhos
Porque você sabe o que eu gosto
E porque quando você me abraça
O mundo gira devagar
E o tempo é só meu
E ninguém registra a cena
De repente vira um filme
Todo em câmera lenta
E eu acho que eu gosto mesmo de você
Bem do jeito que você é"




Toda vez era a mesma história. Todo dia, uma nova carta, um novo pacote chegava a casa. Sempre às 15 horas. Não havia selo. Nem endereço, nem nada. Mas ela sabia que vinham dele. Não podia mais ter dúvidas de que realmente eram dele. Não depois deste último pacote. Esta letra, esta música. Cada detalhe, cada palavra a remetia a um passado não tão distante.

Neste havia uma carta e uma caixa de chocolates. Como ele sempre fazia quando brigavam. Foram poucas vezes que isso aconteceu. Talvez seja por isso que ela não pode deixar de remeter esta atitude a ele. Mas o que será que queria com isso? Seria uma tentativa de reatar? Sinceramente, ela não fazia idéia. Somente uma pessoa poderia lhe responder. E essa pessoa não estava ali naquele instante. Pensou em ligar. A carne foi fraca por alguns minutos. Mas não poderia dar o braço a torcer. Não depois de tudo o que havia acontecido.
Ouviu dizer que ele estava muito bem. Ao lado de outra mulher que provavelmente o fizesse mais feliz. E ela também estava bem. Ao lado de um rapaz que realmente a amava e que tentava de todas as maneiras fazê-la feliz. Do seu jeito desengonçado, pouco a pouco, mas ele conseguia.
Ouviu o barulho da campainha. Era seu atual amado que chegava depois de um dia de trabalho. Olhou para o relógio. Oito horas da noite. Havia perdido cinco horas preciosas do seu dia entretida em pensamentos que já se passaram a muito tempo. Escondeu rapidamente o pacote, e foi atender a porta.
Desceu rapidamente as escadas que davam direto para a porta da frente. Mal a abriu e seu amado a abraçou. Talvez alguma ponta de esperanças de reconciliação com seu ex tivesse sido sobressaltada no período em que ficou com aquela carta nas mãos. Mas elas cessaram assim que abriu a porta e viu aqueles lindos olhos brilhando para ele. Aquele sorriso perfeito que se abria só ao lhe ver.
Pois é. Não poderia deixar uma oportunidade de ser feliz, de amar, ir embora. Enquanto ele tomava seu banho, juntou todas as cartas, todos os pacotes, os chocolates, ensacou e jogou no lixo. Na caixa de correio, um bilhete de resposta:

"E eu não me importo se você me ama, se você me odeia.
Você não pode me salvar." 


E voltou para dentro. Seu amado já a esperava para o jantar. E lá se foram as lembranças deste passado que agora, já estava morto e enterrado.


Pauta para o Projeto Bloínquês, na 58ª Edição Conto/História. Músicas envolvidas na criação do texto: Equalize - Pitty, e What The Hell? - Avril Lavigne. Observação: muita gente vai achar esquisito "a casa", mas segundo Evanildo Bechara é assim que deve ser usado. Pra quem não conhece esse cara aí, ele é um maravilhoso gramático, o qual usei bastante na faculdade ano passado.